A História de SANTA CRUZ, hoje Parelheiros: Terra, Água e Resistência Popular
- 31/12/2025
A História de SANTA CRUZ, hoje Parelheiros: Terra, Água e Resistência Popular
Introdução
CONSTRUINDO A HISTÓRIA DE PARELHEIROS, iniciativa da RÁDIO TV MISTER WEB
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Estamos à disposição para receber mais históricos importantes. Participe! Vamos continuar essa importante história de nossa região, preservando memórias, tradições e informações que formam a identidade de Parelheiros e sua Colônia.
Capítulo 1 – A Cratera da Colônia: o tempo da Terra
Muito antes da presença humana, o território de Parelheiros já carregava uma marca profunda do tempo geológico. A Cratera da Colônia, depressão de formato circular medindo 3,6 km de diâmetro, resultado da queda de um corpo celeste há cerca de 36 milhões de anos, moldou o relevo, o solo e a dinâmica das águas. Parte da área é ocupada por loteamento irregular com cerca de 40 mil pessoas, passando atualmente por urbanização via Programa Mananciais.
Em seu perímetro está instalado um Presídio Estadual e parte da área é usada para atividade agrícola tradicional, tombada pelo CONDEPHAAT e declarada Patrimônio Geológico do Estado de São Paulo em 2011. A cratera é hoje um importante patrimônio científico, ambiental e educativo.
Capítulo 2 – O território de Parelheiros: Patrimônio Ambiental e estratégico
O território de Parelheiros, considerado Patrimônio Ambiental, é estratégico para a vida da cidade por sua riqueza em recursos naturais. Abrange uma área de 360,6 km², representando 24% do município, com ocupação urbana de 2,5% e dispersa de 7,7% (censo SEADE 2001). Situado no Extremo Sul do município, sua divisa está cerca de 10 km do mar. De um mirante no Parque Estadual da Serra do Mar, é possível avistar Itanhaém.
A totalidade do território está situada em área de proteção aos mananciais, compreendendo remanescentes importantes de Mata Atlântica, mantendo grande parte da sua biodiversidade preservada e área de produção agrícola. Parelheiros equilibra as correntes térmicas, apresentando menores temperaturas e maior precipitação pluviométrica da cidade. Sua rede hídrica contempla três bacias hidrográficas: Capivari, Guarapiranga e Billings, cujas duas represas fornecem água para cerca de 25% da população da cidade.
A região é administrada pela Subprefeitura de Parelheiros, responsável por coordenar políticas públicas, manutenção urbana, fiscalização e execução de serviços essenciais. Por meio da Subprefeitura, a população tem acesso a programas de habitação, saneamento, segurança e suporte à preservação ambiental.
É uma área com crescimento acelerado, muito além das taxas ocupacionais de outras regiões, o que ameaça a manutenção do distrito como um dos polos que asseguram a qualidade de vida da cidade de São Paulo. A preocupação com a escassez da água levou à mobilização e estudos de várias instituições civis e governamentais, incluindo a Operação Defesa das Águas.
Capítulo 3 – Um território antes da cidade e presença indígena
Antes da cidade, o território era habitado por povos indígenas. As florestas, nascentes e rios formavam espaço sagrado de sobrevivência e espiritualidade. Hoje, ainda existem as aldeias indígenas Pyau (Krucutu) e Tenondé Porá (Morro da Saudade), com cerca de mil pessoas, mantendo língua, cultura e religião vivas. Contam com escolas específicas e o CECI – Centro de Educação e Cultura Indígena, garantindo educação infantil e contato direto com a cultura guarani. A partir dos 7 anos, meninos e meninas frequentam a EE Indígena Guarani Gwyrapepo.
Capítulo 4 – A terra do Império: Dom Pedro, imigrantes e a Colônia
Parelheiros recebeu este nome devido às diversas corridas de cavalos (parelhas) entre germânicos e brasileiros; antes era conhecido como Santa Cruz. Por determinação do governo imperial, um grupo de 200 imigrantes alemães, austríacos e suíços chegou a São Paulo em 1827 para estabelecer uma colônia agrícola. Após um ano de estudos, o governo provincial escolheu uma área distante 50 km do centro da cidade, conhecida como Colônia Alemã.
A posse do território começou com a chegada de 94 famílias alemãs em 1829, cujos remanescentes habitam a região até hoje. Entre as famílias fundadoras destacam-se Klein, Reimberg, Guilger, Roschel, Gerstenberger, Stapf e Schunck. Esses primeiros imigrantes extraíam madeira para serrarias em Santo Amaro, convertendo-a em móveis e materiais de construção. Entre eles havia católicos e protestantes, o que levou à criação de um cemitério particular protestante e uma igreja simples.
Capítulo 5 – Escravidão, resistência e memória negra
O trabalho escravizado também marcou a região, com homens e mulheres atuando nas lavouras e transporte. Mesmo sob extrema violência, resistiram, preservando saberes e deixando marcas culturais profundas.
Capítulo 6 – Imigração alemã e japonesa: desenvolvimento da Colônia
A Colônia Alemã entrou em decadência sem apoio do governo, sendo depois renomeada Colônia Paulista durante a Segunda Guerra Mundial. Por volta de 1940, imigrantes japoneses chegaram, explorando a agricultura e contribuindo para a formação de Parelheiros e Marsilac como as maiores áreas agrícolas de São Paulo.
O território é cortado por estradas sinuosas, pontilhadas por sítios e fazendas que produzem lenha, hortaliças, flores, buxinhos para bonsai e tuias – árvores de Natal com raiz, símbolo da vida eterna. A Igreja Messiânica tem seu maior templo fora do Japão, o Solo Sagrado de Guarapiranga, inaugurado em 1995.
Capítulo 7 – Charretes, festas e tradição alemã viva
As corridas de charretes entre alemães e brasileiros deram origem ao nome do distrito. As festas da Colônia preservam até hoje a cultura alemã, incluindo culinária, música e celebrações religiosas.
Capítulo 8 – Fé, igrejas e organização comunitária
A Igreja de Parelheiros, a Igreja da Colônia e o Templo Messiânico desempenham papel central na organização comunitária e preservação da memória local.
Além destes, o Templo Quan-Inn, um autêntico templo taoista localizado na Zona Sul de São Paulo, também faz parte do cenário espiritual de Parelheiros. Construído há mais de 30 anos nos padrões asiáticos, é um local para explorar a espiritualidade e a sabedoria, destinado à meditação. Embora receba visitantes, não é um ponto turístico, mas religioso.
Conhecida como a Deusa da Misericórdia, Quan-Inn, deusa chinesa do amor e da compaixão, o templo expressa a cultura chinesa e representa esperança e harmonia para seus participantes. São dois templos irmãos no mesmo pátio: o da frente, Jihua, é taoísta; e o de trás, Quan-Inn, é budista. No templo principal existem três estátuas de grandes Budas chamadas Quan-Inn, Wan Shu e Pu Xian.
O CEU de Parelheiros é outro espaço importante, voltado à educação, cultura, lazer e atividades comunitárias, garantindo inclusão social e incentivo à formação de crianças, jovens e adultos da região.
Capítulo 9 – Ferrovias, túneis e expansão
No distrito de Marsilac, a estação ferroviária Evangelista de Souza integra a história da expansão da Estrada de Ferro Sorocabana. Fazia parte do ramal Mayrink-Santos, crucial para o escoamento do café e quebra do monopólio da companhia inglesa Santos-Jundiaí. Em 1957, inaugurou-se o ramal Jurubatuba-Evangelista, desativado em 1991. Essas linhas fomentaram o desenvolvimento regional e o turismo ecológico-cultural.
Capítulo 10 – Águas, cachoeiras, barragens e o Bairro da Barragem
Parelheiros possui rede hídrica estratégica, abrangendo Capivari, Guarapiranga e Billings, represas que abastecem 25% da população de São Paulo. As águas, cachoeiras e barragens transformaram o território, e o Bairro da Barragem surgiu como núcleo de trabalhadores e famílias próximas aos mananciais.
Além disso, a região conta com infraestrutura urbana essencial:
- Terminal de ônibus de Parelheiros, que conecta o distrito ao restante da cidade;
- Hospital de Parelheiros, referência de atendimento médico;
- Subprefeitura de Parelheiros, que coordena todas essas ações e garante planejamento urbano, fiscalização e serviços públicos essenciais.
Capítulo 11 – Colônia: cemitérios e memória histórica
O Cemitério da Colônia é um marco da imigração alemã, preservando padrões do século XIX com lápides de mármore e cabeceiras altas. A Colônia é um assentamento de alemães luteranos e possui o primeiro cemitério particular e protestante de São Paulo.
Outros cemitérios importantes da região incluem:
- Cemitério de Parelheiros;
- Cemitério de Girassol, onde está sepultado o cantor Antônio Marcos;
- Cemitério de Marsilac, onde foi sepultada Carolina Maria de Jesus.
Capítulo 12 – Ecoturismo, preservação e futuro
O território é uma Macrozona de Proteção Ambiental, com 62,4% de remanescentes de Mata Atlântica (Censo 2001). Abriga as APAs Capivari-Mono e Bororé-Colônia, protegendo mananciais e biodiversidade, e destacando o ecoturismo sustentável.
Entre os centros de espiritualidade e convivência está a CCEV – Comunidade Casa Esperança e Vida / Vale da Páscoa, localizada no Parque Lagoa Rica, em Parelheiros, no antigo Camping Clube Paulista. O Vale da Páscoa integra participantes e colaboradores, funcionando como centro de espiritualidade, acolhimento, convivência, formação, treinamentos e retiros.
Sua infraestrutura inclui: Igreja Senhor da Glória, Mosteiro, Capelinha Nossa Senhora de Fátima, Memorial CCEV, casa de acolhimento Chalé Santana, refeitórios, padaria, chalés para até 100 pessoas, sanitários, estacionamento, campo de futebol, lago, bosque, trilhas, pomar, hortas, escritório, auditório, oficina de costura, atelier, lojinha, barbearia, curral, galinheiro, tartarugueiro, orquidário, suculentário e espaço de reciclagem e composteira.
No Vale da Páscoa, os Monges Servos da Esperança acolhem os mais pobres, incluindo dependentes químicos. Para visitar, é necessário agendar pelo Escritório Central, garantindo organização e segurança.
Capítulo 13 – Carolina Maria de Jesus e a periferia que fala
Carolina Maria de Jesus, escritora e catadora de papel, possui seu sítio em Parelheiros, mantendo vínculo com a terra. Foi sepultada no Cemitério de Marsilac, reforçando a conexão da autora com o território.
Capítulo 14 – Parelheiros hoje: memória, luta e direito à cidade
Hoje, Parelheiros representa o encontro entre saberes indígenas, trabalho escravizado, imigração europeia e japonesa, fé popular, luta pela água, preservação ambiental e cultura periférica. Defendê-lo é preservar memória, dignidade e qualidade de vida em São Paulo.





